Mitos

 

                   Eros e Psiquê



Psiquê era uma princesa mortal de beleza indescritível, mais nova das três filhas de um rei de Mileto. Era adorada e amada por todos, de tal modo que se assemelhava a uma divindade. Por esse motivo a deusa Afrodite, profundamente enciumada e ofendida, ordenou a seu filho Eros que a atingisse com uma de suas flechas envenenadas com o filtro do amor, para que se apaixonasse pelo mais horrível monstro. Eros, ao tentar consumar sua tarefa, atrapalha-se e acaba atingindo a si próprio, sentindo as fortes dores do amor pela linda donzela. Estando apaixonado, ele não utiliza nenhuma de suas flechas, e Psiquê permanece sozinha. O rei, seu pai, preocupa-se, pois já havia casado as duas irmãs de Psiquê, e esta permanecia solteira. Ele acreditava que havia sido punido pelos deuses por causa da extrema beleza de sua filha. Decide, então, consultar o Oráculo de Delfos que, por influência de Eros, prevê ser o destino da princesa casar-se com um terrível ser monstruoso, uma serpente. Para tanto, ela deveria ser levada até um alto rochedo, sendo deixada ali à própria sorte. Chegando lá, ela conforma-se com seu destino, adormecendo profundamente. Eros pede a Zéfiro, o suave vento oeste, deus do céu estrelado, que leve sua amada para seu castelo.
 Quando Psiquê acorda, está em um vale maravilhoso, e nas montanhas distantes havia uma construção magnífica, o palácio do deus. Ela caminha até o local, impressionada com a divina beleza que via em tudo. A noite chega, e com ela a escuridão. Amedrontada, a princesa aguarda a chegada do monstro, mas uma voz lindamente suave a tranqüiliza e a acaricia, e logo Psiquê sente braços humanos ao seu redor, e entrega-se, conhecendo as delícias do amor. A cena se repete por diversas noites, mas a identidade do amante nunca lhe é revelada. Quando chega o dia, não o encontra em lugar algum. Eros não permitia que Psiquê visse sua face, temendo a ira de Afrodite.

 Apesar de todos os prazeres que ali lhe eram oferecidos, ela sente falta de sua família. Eros adverte a esposa de que suas irmãs tentariam convencê-la a conhecer sua identidade, mas se tentasse ver seu rosto, ele a deixaria para sempre. As irmãs a visitam e, tomadas de inveja pela sorte da irmã, sua beleza e as riquezas do castelo, dizem a Psiquê que, se o marido não lhe mostrava o rosto, é porque deveria ser um terrível monstro, não um deus. Ela desconsidera os avisos do marido e, uma noite, enquanto Eros dormia, aproxima sua lâmpada para ver-lhe de perto as feições. Assombrada com tamanha beleza, a plenitude divina do deus, repousando em doçura e quietude inigualáveis, ela derrama uma gota do óleo da lâmpada no ombro de Eros. Ele imediatamente desperta e, tomado de dores físicas pela queimadura, e sentimentais pela traição de Psiquê, rapidamente foge voando pela janela, dizendo-lhe: “O amor não pode viver sem confiança !” Imediatamente o castelo desaparece, e Psiquê se vê solitária nas colinas próximas à casa de seu pai.
 É tomada de imensa tristeza, inconsolável por ter sido deixada pelo marido. Decide terminar a própria existência, atirando-se em um rio, mas este não a aceita, levando-a de volta para a margem. Ela sai à procura do amado, caminhando por todos os lugares da terra e suplicando auxílio a todas as divindades. Chegando finalmente ao Templo de Afrodite, a deusa não esconde a raiva pela moça. Afinal, Psiquê havia sido motivo de adoração no lugar dela, e por sua causa Eros lhe desobedecera e agora estava em uma cama recuperando-se do ferimento no ombro. Psiquê atira-se aos pés da deusa, implorando seu perdão e o retorno de seu marido. Afrodite decide, então, impor tarefas impossíveis a Psiquê, de modo que, ou ela desgastaria toda sua beleza no esforço de realizá-las, ou morreria.
 A primeira tarefa consistia em separar, antes do anoitecer, uma montanha de grãos de diversos tipos que estavam misturados entre si. Entretanto, mal ela havia começado a separação quando adormece, exausta. Durante seu sono, uma multidão de formigas se compadece de sua sorte, e realiza todo o trabalho com rapidez e perfeição, separando as espécies de grãos em montículos. Nessa tarefa, a alma adquire a habilidade do Discernimento.
            Na segunda tarefa, Psiquê deveria levar até a deusa a preciosa lã dourada de alguns agressivos carneiros que vagueavam as margens de um rio. Quando ia atravessar as águas, correndo o risco de ser morta pelos fogosos animais do outro lado, uma voz eleva-se dos juncos à margem do rio, e lhe diz que esperasse até que entardecesse, para que os carneiros se acalmassem e apaziguassem. Ela deveria procurar um espinheiro, onde os carneiros deixariam diversos fios de lã presos após se aproximarem para beber. Ela colhe a lã dourada e a leva para Afrodite. Desse modo, a alma consegue concluir a tarefa com o uso de sua Criatividade, aprendendo a examinar as situações e perceber oportunidades mesmo naquilo que é difícil.
             A terceira tarefa imposta era subir ao alto de uma montanha e trazer à deusa uma jarra cheia com a escura e puríssima água do rio Estige, que ali desembocava. A montanha era altíssima, e logo a influência sonífera do rio infernal faz Psiquê ficar amortecida e cambalear perigosamente nas escarpas de pedra. Zeus se compadece da inocente alma, e manda uma de suas águias, dotada de visão arguta e perfeita, tomar-lhe a jarra, enchendo-a com a negra água da fonte. Psiquê a leva à deusa, cada vez mais enfurecida. Nessa tarefa, a alma é ajudada pela Visão.
             Percebendo que Psiquê conseguiria realizar todas as tarefas que lhe impusesse, Afrodite planeja mais uma, fatal. Ela inventa que perdera um pouco de sua beleza cuidando dos ferimentos de Eros, e manda Psiquê descer ao Reino dos Mortos para pedir à Rainha Perséfone um pouco de sua própria beleza, guardando-a em uma caixa. Psiquê entra em desespero, pois não havia outro modo de chegar ao Hades, a não ser morrendo. Ela sobe a uma alta torre para dela se atirar, mas esta lhe diz que não faça isso, pois havia um outro jeito de chegar ao mundo dos mortos. A Torre é a construção humana na direção da divindade, um sistema de idéias, pensamentos, concepções, a sabedoria humana acumulada. 
A Torre lhe explica o caminho para o Hades, ensinando-lhe como passar por Cérbero e lhe entregando uma moeda para pagar o barqueiro Caronte. Também alerta para que ela não ajude ninguém no caminho, e para que não abra a caixa, pois a beleza dos deuses não se destina aos olhos mortais. Além do medo do subterrâneo e as pessoas que lhe procuravam atrapalhar, Psiquê precisou aprender a desenvolver o Foco em seu principal objetivo, que era reconquistar Eros, o amor. E desse modo ela chega ao Reino dos Mortos, onde encontra Perséfone, que estava sentada imponente em seu trono, recebendo da deusa a caixa contendo um pouco de sua magnífica beleza.
             Agora a alma já conheceu as quatro habilidades para que possa se reencontrar com seu grande amor: discernimento, criatividade, visão e foco. Porém, nesse momento, sua curiosidade humana fala mais alto. Acreditando ter perdido sua beleza durante as tarefas, e movida pela vaidade, Psiquê abre a caixa de beleza imortal, que é a própria morte, caindo em um profundo sono. Somente agora é que Eros, recuperado de sua ferida, vai retornar para sua amada, com a consciência de que poderia perdê-la para sempre. Ele guarda a beleza de volta na caixa e desperta Psiquê, lembrando-lhe que sua curiosidade havia sido novamente a grande falta. Ela entrega à Afrodite a caixa, terminando as tarefas. Eros implorou a Zeus que apaziguasse sua mãe, ratificando seu casamento com Psiquê. O grande deus atende prontamente, entendendo o poder que agora o amor tinha, por estar humanizado com sua alma.
 
A jovem foi, então, conduzida por Hermes à Assembléia dos Deuses, sendo-lhe oferecida uma taça de ambrosia, o que a tornou imortal. Do casamento de Eros e Psiquê nascem trigêmeos: Eros II (o Amor dos seres), Volúpia (Virtude) e Voluptas (Prazer), que representam o êxtase máximo, a conjunção do divino humanizado e o humano divinizado.

 
Lições:
- Como pode viver o amor com sentimentos conflitantes ?
- O amor não convive com a agressividade e a raiva.
- O amor não sobrevive na inércia, na rotina.
- O amor necessita do desejo para poder viver.

* Psiquê siginifica “alma”, em grego . Eros é o deus do ''amor'' e representa a força poderos que faz com que os seres sejam atraídos uns pelos outros e garante a perpetuação de todas as espécies.
   ~ A lenda de Eros e Psiquê é uma bela alegoria que explica a união do corpo com a alma. Todas as provações pelas quais Psiquê teve que passar simbolizam a purificação da alma através do sofrimento no preparo para a felicidade plena e verdadeira que o amor proporciona àqueles que estão dispostos e são capazes de resistir a tais provações.

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              Apolo e Dafne

    Apolo era o mais belo dos deuses do Olimpo, senhor da Arte, da Música e da Medicina. Ciente da própria beleza e confiante na sua destreza em manejar o arco de prata, matou a terrível serpente Píton, que da sua caverna no Monte Parnaso, assustava todos os habitantes daquela terra.
Conta Ovídio em “As Metamorfoses”que perante a arrogância de Apolo como vencedor de Píton, Cupido decidiu fazer-lhe uma partida. Para lhe mostrar a superioridade das suas flechas, mandou duas, uma de ouro, com o poder de atrair o amor, sobre Apolo, e uma outra de chumbo que afastava o amor sobre a bela ninfa Dafne, filha do rio-deus Peneu.


Ferido por Cupido, o deus foi tomado de amor pela ninfa, esta que sempre recusara os pretendestes, horrorizada tentou escapar-lhe, correndo como se asas tivesse nos delicados pés.
Arrastado pela paixão, pela vontade de tocar o ser amado, de beijá-la e dizer-lhe o quanto a amava, Apolo corria como acossado pelas Fúrias.
Desesperada, constatando que o seu perseguidor estava cada vez mais próximo, que as forças começavam a fraquejar, Dafne ao ver o pai entre as árvores pediu-lhe que a salvasse mudando-lhe a forma do corpo para que o impetuoso deus a deixasse em paz. Peneu fez o que a filha pediu... E quando Apolo estava quase a tocar-lhe os cabelos, Dafne sentiu um torpor estranho apoderar-se dos seus membros: o seu corpo revestiu-se de casca, os seus cabelos transformaram-se em folhas, os seus braços mudaram-se em ramos e galhos, os pés cravaram-se na terra, como raízes. Impotente perante a metamorfose da sua amada em arbusto, o loureiro, Apolo abraçou-se aos ramos e beijou ardentemente a casca, declarando:
 
- Já que não podes ser minha esposa, serás a minha planta preferida e eternamente me acompanharás. Usarei as tuas folhas sempre verdes como coroa e participarás em todos os meus triumfos, consagrando com a tua verdura perfumada as frontes dos heróis.
Foi assim que o loureiro ficou associado ao belo e luminoso deus, símbolo do seu amor pela ninfa Dafne.

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             Eco e Narciso


O mito grego de Narciso e Eco nos conta a trágica história de  uma paixão! E toda paixão é trágica, como bem disse o sábio rei Salomão para a sua amada Sulamita: “Cruel como o abismo é a paixão, suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Iahweh!” (Cânt 8,6)
Pelo mito ficamos sabendo que Narciso era filho do rio Cefiso e da ninfa Liríope, nome que lembra uma flor, o Lírio. Pois bem, dessa união do rio com a flor do Lírio nasceu o jovem Narciso, considerado o mais belo dos mortais. De uma beleza nunca vista, Narciso tornou-se a paixão de todas as jovens da Grécia. Até mesmo as ninfas, divindades ligadas aos elementos da natureza e conhecidas por sua formosura, estavam irremediavelmente presas à beleza de Narciso.  E, dentre estas, Eco uma jovem ninfa conhecida por sua tagarelice.
Zeus, o imortal deus do Olimpo gostava de dar suas escapadas amorosas pelo mundo dos mortais, atrás de belas jovens. Casado com a ciumenta Hera que o vigiava constantemente, pediu à ninfa Eco que distraísse sua esposa com sua conversa, enquanto ele descia à terra para mais um de seus encontros amorosos. Hera, que não era boba e conhecia o marido que tinha, percebeu a artimanha e castigou a ninfa, condenando-a a não mais falar: repetiria tão-somente os últimos sons das palavras que ouvisse.
Mas, era verão e a jovem ninfa estava apaixonada por Narciso, que partira com alguns companheiros para uma caçada nos bosques. Sem se deixar ver, Eco seguia o amado, ansiando por ele. Acariciando o amado com seu olhar, Eco perscrutava-o intensamente, como que querendo sorvê-lo aos turbilhões, tentando captar o segredo daquele sentimento, daquela paixão.
Alheio aos sentimentos despertados em Eco e tendo-se afastado dos amigos, Narciso começou a gritar por eles ouvindo em resposta o som de sua própria voz a ecoar pelas montanhas afora… A apaixonada ninfa, castigada pela Deusa Hera, não podia falar! Eco ouvia a voz de seu amado, mas não podia lhe falar e, sem a possibilidade do encontro, entristecida, sentindo-se rejeitada por Narciso, a jovem deixou de se alimentar, definhando até transformar-se em uma rocha. Capaz apenas de repetir os derradeiros sons do que ouvia. As demais ninfas, condoídas com a sorte de Eco e irritadas com o que consideravam uma insensibilidade por parte de Narciso, pediram vingança a Nêmesis. E a  deusa da justiça distributiva o condenou a amar um amor impossível.
Numa tarde de verão Narciso, sedento, aproximou-se da límpida fonte de Téspias para mitigar a sede. Debruçando-se sobre o lago que formava um espelho imaculado, ele  viu-se refletido nas águas e apaixonou-se pela própria imagem. Não conseguindo mais se afastar da própria imagem, morreu de inanição, tal qual a ninfa Eco. Em seu lugar foi encontrada uma delicada flor amarela, com o centro circundado de pétalas brancas. Era o Narciso.

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             Danaídes


Danao, filho de Belo e neto de Posseidon (Netuno), era pai de cinqüenta filhas, as danaides, que tivera com diversas mulheres. Por sua vez, seu irmão gêmeo, Egito, que havia recebido como herança a soberania da Arábia, e depois conquistara as terras que hoje formam o Egito (segundo certa tradição, foi dele que se originou a denominação desse país) era pai de cinqüenta filhos, os egiptíades. Os dois reinavam sobre um vasto território que incluía a região da Líbia, nome que os gregos davam ao norte da África, afora o Egito, certamente como homenagem à esposa de Netuno.
 Certo dia, Egito, soberano das terras que tinham seu nome, sugeriu ao irmão Danao, senhor da Líbia, que os cinqüenta descendentes de cada um casassem entre si, a fim de preservar a dinastia, mas como este último não concordou com tal proposta, os gêmeos discutiram, se desentenderam seriamente, acabaram brigando, e em conseqüência iniciaram uma guerra que terminou pouco depois com a vitória dos egiptíades, combatentes mais experientes e mais aguerridos que os seus adversários. Ao se ver derrotado, Danao fugiu levando consigo as suas cinqüenta filhas. Atravessou o mar Mediterrâneo e desembarcou na região do Peloponeso, península que forma o sul da Grécia, sendo recebido por Gelanor, rei dos pelasgos que dominavam aquelas terras.
 A partir desse ponto, duas versões explicam os acontecimentos seguintes. Na primeira delas, Gelanor, aconselhado pelo oráculo que procurara, entregou pacificamente o seu trono ao recém-chegado; na segunda, logo depois da chegada festiva e amistosa de Danao e comitiva, eles se tornaram rivais, e para colocar um ponto final no desacordo que os separava, decidiram entregar ao povo a decisão sobre qual deles deveria reinar. No entanto, durante a manhã do dia marcado para a eleição, um lobo saiu da floresta, atacou o rebanho que pastava fora da cidade e matou o rei local, tragédia considerada pelos habitantes do lugar como um sinal da proteção divina concedida ao estrangeiro por Apolo Liciano. Transformado em rei, Danao instaurou em Argos o culto a esse deus, e para homenageá-lo mandou erguer um templo.
 Mas os filhos de Egito foram ao encalço de suas pretendidas, e quando as encontraram exigiram de Danao que elas lhes fossem dadas em casamento, conforme, segundo diziam, havia sido prometido por ele. Diante da iminência de uma nova guerra, coisa que não desejava enfrentar novamente, o pai das danaides acabou concordando com a cerimônia, mas depois, dando a cada filha uma adaga, instruiu-as para que assassinassem seus maridos na noite de núpcias. Quarenta e nove delas fizeram isso, e apenas Hipermnestra, que havia desposado Linceu, deixou de cumprir o que havia sido combinado, preferindo fugir com o marido. Por isso, segundo a tradição, ao ser encontrada ela foi encerrada em uma prisão por ordem do pai, de onde foi salva, segundo alguns relatos, por Afrodite (Vênus), a deusa do amor.
Quanto ao destino das quarenta e nove irmãs que mataram os respectivos maridos, existem, também, duas versões. Em uma, elas foram entregues como esposas aos vencedores de várias competições organizadas pelo pai. Na outra, mais aceita, todas morreram nas mãos de Linceu, que assim vingou seus irmãos assassinados, sendo condenadas por Zeus (Júpiter), a encher com água, por toda a eternidade, um tonel sem fundo, castigo que elas vêm cumprindo desde que chegaram ao Tártaro, abismo situado no fundo do inferno mitológico.
 Desde então a expressão “tonel das Danaides” passou a significar, figuradamente, o esforço infindável, porque nunca termina; o trabalho feito repetitivamente e sem nenhum resultado prático ou proveitoso.
 Em 25 de setembro de 1943, o jornal “A República” publicou o texto abaixo, do escritor e folclorista Luis da Câmara Cascudo:
  
     “As Danaides eram cinqüenta filhas de Danao, rei de Argos. Seu irmão, Egito, tinha cinqüenta filhos. Mandou a filharada masculina casar com as primas. Danao não queria o casamento. Combinou com as filhas um plano. Os cinqüenta recém-casados tiveram a mais estranha noite de núpcias de que há notícias no mundo. Foram todos assassinados pelas esposas. Só escapou um, Linceu, poupado por sua mulher, Hipermnestra. Júpiter condenou as Danaides às penas do Tártaro, que era o Inferno daquele tempo. As Danaides enchiam um tonel sem fundo. Séculos e séculos, sem pausa, sem descanso, interrupção, as moças carregavam água, despejando-a no barril furado.

Teodoro de Banville contou o fim dessas Danaides, na “Lanterna mágica”. Os Titãs venceram os Deuses. O Tártaro ficou sem chefe, despovoado de sofredores, todos perdoados. Aspério anuncia a terminação da sentença: “- Acabou vosso suplício. Largai essa penitência. O tonel está cheio”. As Danaides pararam, pela primeira vez, há milênios. Enxugaram a fronte, descendo as bilhas infatigáveis. E dizem confusas e desapontadas :  “- Está cheio o tonel? Pois bem! Que havemos de fazer? Já estamos habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil”.
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          Deméter 


(Ceres em latim) - A mais antiga e também a mais venerada deusa em toda a Grécia, seu culto estava estritamente vinculado ao ciclo da terra, sendo, portanto, fundamentalmente baseado em rituais agrários. Filha de Crono e Réia, assentava-se entre as doze divindades do Olimpo.
Constantemente assediada por Posídon que a desejava, disfarçou-se em égua a fim de iludir seu pretendente. Foi inútil tentativa, pois Posídon, descobrindo tudo, disfarçou-se em cavalo logrando assim seu intento de unir-se a Deméter. Dessa indesejável união nasceu Aríon, cavalo com a capacidade da fala e da predição do futuro e uma filha cujo nome poucos conheceram. Indignada com a atitude de Posídon, Deméter retirou-se do Olimpo. A terra tornou-se a partir daí estéril e estabeleceu-se um período de fome absoluta. Por causa desse incidente recebeu muitos cognomes, entre eles a de “Negra” por haver se vestido de luto e de “Erínia” por causa da ira que se abateu sobre ela. Foi somente após banhar-se no rio Ládon, cuja característica era a de fazer apagar mágoas e ressentimentos, que Deméter, purificada, voltou ao Olimpo.
De seu romance de trágico desfecho com Iásion, Deméter teve um filho chamado Pluto, que posteriormente tornou-se a personificação da riqueza e da abundância. Iásion morreu atingido por um raio fulminante enviado pelo enciumado Zeus ao surpreender juntos os dois amantes. De sua união com Zeus nasceu Persephone, que estando certo dia a colher flores no campo foi subitamente raptada por Hades e levada às profundezas. Amargurada com o desaparecimento da filha, Deméter vagou pelo mundo inteiro à sua procura. Hélio, o deus Sol que a tudo vê foi quem lhe revelou seu paradeiro. Revoltada com Hades e também com Zeus que permitira o seqüestro, retirou-se do Olimpo e metamorfoseada em velha, dirigiu-se a Elêusis, cidade da Ática.
Lá chegando, interpelada pelas filhas do rei Céleo a respeito de sua identidade, mentiu dizendo ser Doso, vítima de piratas que a haviam seqüestrado de Creta, cidade onde residia. Convidada a cuidar do recém nascido Demofonte, filho de Metanira, a esposa do rei, aceitou a incumbência. Já Deméter decidiu tornar o rebento imortal e para tanto, alimentava-o com ambrosia e com o néctar dos deuses, esfregando-o todas as noites com o fogo da imortalidade. Aconteceu, porém, que certa feita Deméter foi surpreendida pela rainha em seus rituais mágicos. Esta, ao se deparar com a imagem de seu filho exposto às chamas, lançou um grito desesperado. Irada com tamanha ignorância e incompreensão, a deusa interrompeu o ritual, condenando Demofonte a prosseguir como simples mortal e surgiu em todo seu esplendor denunciando sua verdadeira origem.
Ordenou que se erguesse um templo em sua homenagem no qual ela pudesse ensinar aos homens seus ritos secretos. Uma vez construído seu santuário, retirou-se do Olimpo e ali se refugiou para chorar a saudade que sentia de sua amada filha. Amaldiçoou a terra lançando sobre ela uma implacável seca e impedindo que ali nascesse qualquer tipo de vegetação. Inutilmente, tentando convencê-la a mudar de atitude, Zeus se viu forçado a interceder junto a Hades para que devolvesse Persephone a sua mãe. O soberano dos infernos consentiu mas, antes de deixar partir sua amada, fez com que ela comesse um bago de romã. Prendeu-a com isso, para sempre, aos Infernos, uma vez que, quem ali se alimentasse, ficaria eternamente condenado a retornar. Quando mãe e filha se reencontraram, a terra novamente se cobriu de verde e a abundância voltou a reinar, mas sua filha só ficava com ela por 6 meses, pois como tinha comido um bago de romã de Hades, ela ficou ligada à ele. Então metade do ano ela passava com a mãe e metade com Hades.
A narrativa do rapto e do subseqüente encontro de Persephone com sua mãe são a base fundamental para a instituição dos Mistérios de Elêusis, pois foi somente após esse reencontro que Deméter transmitiu seus ritos secretos. Calcula-se que os Mistérios foram inaugurados no século XV a.C. e perduraram por dois mil anos. Tinham um caráter extremamente democrático, pois qualquer um, governante, escrava, dona de casa ou prostituta podia tornar-se um Iniciado, desde que soubesse falar grego. Tal condição se fazia necessária pela necessidade de se repetir , durante a liturgia, fórmulas e palavras. Além disso, sua prática não interferia nos afazeres cotidianos ou em qualquer tipo de atividade pois os Mistérios não se constituíam em seita ou associação secreta. O pouco que se sabe a respeito dos Mistérios de Elêusis é que os Iniciados só se distinguiam dos demais após a morte quando então se constituíam um grupo a parte. Os Mistérios não prometiam a imortalidade, mas a bem-aventurança após o término da vida terrena.
Instituídos seus Mistérios, Deméter ainda entregou a Triptólemo, o outro filho do rei Céleo, os ensinamentos sobre a arte de semear e colher o trigo bem como os segredos do preparo e do armazenamento do pão e o incumbiu de difundir ao mundo o que havia aprendido. Somente então, a deusa voltou a conviver juntamente com sua filha com os deuses no Olimpo.
Inúmeras festas eram celebradas em sua homenagem e todas elas realizadas de acordo com as estações do ano, uma vez que estavam intimamente ligadas ao plantio, colheita do trigo e ao trabalho decorrente disso. Dentre as mais importantes festas destacam-se as Tesmofórias, onde se expressava gratidão à deusa pelas últimas colheitas, as Clóias, que se realizavam quando o verde do trigo e da cevada cobriam o campo, as Talísias, realizadas no início das colheitas e Haloas, festa dedicada também a Dionísio .
Era invocada como deusa da terra cultivada, da colheita e da semeadura, diferenciando-se portanto de Gaia , a Terra, a Grande Mãe. O culto a Deméter possuía um caráter basicamente agrário, já que ela era responsável por todos os fenômenos e procedimentos ligados direta ou indiretamente à cultura da terra.
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       Urano e Gaia 

Da união deles nasceram primeiro seis meninos e seis meninas, os Titãs e as Titânides, todos de natureza divina, como seus pais. Eles também tiveram filhos.
Um deles, Hiperíon, uniu-se à sua irmã Téia, que pôs no mundo Hélio, o Sol, e Selene, a Lua, além de Eo, a Aurora. Outro, Jápeto, casou-se com Clímene, uma filha de Oceano. Ela lhe deu quatro filhos, entre eles Prometeu. O mais moço dos Titãs, Crono, logo, logo ia dar o que falar.
A descendência de Urano e Gaia não parou nesses filhos. Conceberam ainda seres monstruosos como os Ciclopes, que só tinham um olho, bem redondo, no meio da testa, e os Cem-Braços, monstros gigantescos e violentos. Os coitados viviam no Tártaro, uma região escondida nas profundezas da terra. Nenhum deles podia ver a luz do dia, porque seu pai os proibia de sair.
Gaia, a mãe, quis libertá-los. Ela apelou para seus primeiros filhos, os Titãs, mas todos se recusaram a ajudá-la, exceto Crono. Os dois arquitetaram juntos um plano que deveria acabar com o poder tirânico de Urano.
Certa noite, guiado pela mãe, Crono entrou no quarto dos pais. Estava muito escuro lá, mas o luar lhe permitiu ver seu pai, que roncava tranqüilo. Com um golpe de foice, cortou-lhe os testículos. Urano, mutilado, berrou de raiva, enquanto Gaia dava gritos de alegria. Esse atentado punha fim a uma autoridade que ela estava cansada de suportar, e a inútil descendência deles parava aí — ou quase… Algumas gotas de sangue da ferida de Urano caíram na terra e a fecundaram, dando origem a demônios, as Erínias, a outros monstros, os Gigantes, e às ninfas, as Melíades
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           Crono

Vencedor de seu pai Urano, Crono se tornou o senhor todo-poderoso do universo. Em vez de beneficiar seus parentes, libertando os irmãos, preferiu reinar sozinho e os deixou encerrados nas profundezas da terra. Sua mãe, furiosa, predisse seu fim:
“Você também, filho meu, será deposto do trono por um dos seus filhos!” Temendo a realização dessa profecia, Crono fez como o pai: arranjou um jeito de eliminar os filhos que lhe dava sua esposa Réia. Cada vez que nascia um, ele o devorava. Isso ocorreu com cinco recém-nascidos.
A mãe deles, desesperada, foi ver Gaia: “Querida avó, preciso da sua ajuda. Seu filho faz desaparecer todos os filhos que concebo. Um sexto acaba de nascer. E um menino. Ajude-me a salvá-lo!” “Você precisa ser mais astuciosa do que ele, minha filha”, respondeu-lhe maliciosamente Gaia. “Enrole uma pedra numa coberta e entregue a Crono, no lugar do bebê. Ele nem vai desconfiar e vai engolir a pedra, como engoliu os outros filhos!” 
A profecia de Gaia não tardaria a se realizar: o bebê que elas acabavam de salvar era Zeus. O jovem deus logo tomou do pai o poder absoluto sobre o mundo…  
Zeus fez-se copero de seu pai e com a ajuda de Metis entregou-lhe um suco feito com mostaza e sal que fez que vomitasse a pedra que se engoliu e os filhos que ainda jaziam vivos em seu interior (Hera, Deméter, Hades, Poseidón e Hestia). Após isto, Zeus e seus irmãos entraram em guerra com os Titanes, uma luta que durou cerca de dez anos, até que Gea viu que ganharia o bando de Zeus se se aliava com os Cíclopes e Hecatonquiros. O deus dos deuses libertou-lhes do Tártaro, onde Crono lhes encadeou, e graças a isto lhe presentearam umas armas para poder vencer a guerra. Ao final, Crono e os Titanes foram presos no Tártaro. 
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